23 de fev. de 2015

Alguns CONCEITOS e CONSIDERAÇÕES sobre CULTURA

Alguns CONCEITOS e CONSIDERAÇÕES sobre CULTURA


1- O papel da EDUCAÇÃO na transmissão da cultura

O antropólogo Clyde Kluckhohn (1905-1960) observa em Antropologia Um espelho para homem que cultura é "a vida total de um povo, a herança social que o indivíduo recebe de seu grupo, ou pode ser considerada a parte do am­biente que o próprio homem criou".
Por sua vez, Bronislaw Malinovski (1884­1942), outro antropólogo, ensina que a cultura compreende "artefatos, bens, processos técni­cos, idéias, hábitos e valores herdados".
A aquisição e a perpetuação da cultura, portanto, é um processo social, resultante da aprendizagem. Cada sociedade transmite às novas gerações o patrimônio cultural que recebeu de se~s antepassados. Por isso, a cultura é também chamada de herança social.
Nas sociedades em que não há escolas, a transmissão da cultura se dá por intermédio dá família ou da convivência com o grupo adulto. Nesse caso, diz-se que a educação é informal ou assistemática .
Quando há escolas, estas se encarregam de completar a transmissão da cultura iniciada na família e em outros grupos sociais. Nesse caso, a educação é formal ousistemática, isto é, obe­dece a uma organização previamente planejada.
Não há, portanto, um modelo único, uma forma exclusiva de educação. A carta dos indí­genas norte-americanos ao governo de Virgínia revela que a cultura de uma sociedade é trans­mitida das gerações adultas às gerações mais jovens por meio da educação. Educar, pois, é transmitir aos indivíduos os valores, os conhe­cimentos, as técnicas, o modo de viver, enfim, a cultura do grupo.

2- IDENTIDADE CULTURAL

Cada sociedade elabora sua própria cultura ao longo da história e recebe a influência de, outras culturas. Todas as sociedades, desde as mais simples até as mais complexas, têm sua própria cultura. Não há sociedade sem cultura.
Desde que nasce, um indivíduo é influen­ciado pelo meio social em que vive. Com exce­ção do recém-nascido e dos raros indivíduos que foram privados da possibilidade de con­vívio humano, não há pessoas desprovidas de cultura.
A cultura pode ser definida também como um estilo de vida próprio, um modo de vida particular que todas as sociedades desenvol­vem e que caracteriza cada uma delas. Assim, os indivíduos que compartilham a mesma cul­o tura apresentam o que se chama de identidade cultural. É essa identidade cultural que faz com que a pessoa se sinta pertencendo ao grupo, é por meio dela que se desenvolve o sentimen­to depertencimento a uma comunidade, a uma sociedade, a uma nação, a uma cultura.
Por exemplo, as comunidades indígenas, são realidades culturais diferenciadas em rela­ção à sociedade dita "civilizada". Como tal, são capazes de reproduzir regras, valores e estilos próprios de organização. Os indivíduos que per­tencem a elas desenvolvem um forte sentimen­to de identidade cultural, como vimos na carta dos chefes indígenas ao governo de Virgínia.
 
3- ASPECTO MATERIAL E O NÃO-MATERIAL DA CULTURA

cultura material consiste em todo tipo de utensílios produzidos em uma sociedade - fer­ramentas, instrumentos, máquinas, hábitos ali­mentares, habitação etc. - e interfere direta­mente em seu estilo de vida.
Por exemplo: um dos alimentos básicos no interior do Nordeste é a farinha de mandioca; muitos nordestinos preferem utilizar redes em vez de camas para dormir; também no inte­rior dessa região, as casas das classes bai­xas são muitas vezes construídas com barro socado entre hastes de madeira cruzadas (tai­pa.) e cobertura de palha. Forma-se, assim, um modo ou estilo de vida fundamentado na cultura material da região.          I
Já a cultura não-material abrange todos os aspectos morais e intelectuais da sociedade, tais como: normas sociais, religião, costumes, ideologia, ciências, artes, folclore etc.
Por exemplo, a maior parte da população brasileira segue a religião católica, não há pena de morte em nossa legislação e a miscigena­ção racial é muito forte, embora persistam ma­nifestações de preconceito e atitudes discrimi­natórias, principalmente contra os negros. Esses aspectos não-materiais de nossa cultura contras­tam com os que encontramos, por exemplo, nos Estados Unidos - uma sociedade de maio­ria protestante, na qual muitos estados empregam a pena de morte e onde a discriminação I racial era oficialmente permitida até a década de 1960, quando, após muita luta, criaram-se leis que impedem as práticas racistas.
Uma das manifestações da cultura não­ material de maior interesse para o antropólogo é o folclore.
Interdependência entre o material e o não-material da cultura

Existe uma interdependência estreita e constante entre cultura material e cultura não­material. Quando, por exemplo, assistimos à apresentação de uma orquestra, sabemos que as músicas executadas são produto da criati­vidade de um ou mais músicos. Entretanto, pa­ra comunicar sua criação aos outros, os artistas valem-se de instrumentos musicais. Da mesma forma que uma melodia requer instrumentos musicais para sua exteriorização, também as religiões, de modo geral, necessitam de tem­plos, altares e outros componentes materiais para que possam ser praticadas.
Na verdade, a interdependência entre es­ses dois aspectos é intrínseca a qualquer cul­tura, pois um grupo só pode realizar sua cultura não-material apoiado em meios concretos de expressão que fazem parte de sua cultura ma­terial (os instrumentos de uma orquestra, por exemplo ).

4- COMPONENTES DA CULTURA

A cultura é um todo orgânico, um sistema, um conjunto de partes que se relacionam es­treitamente. Para melhor compreender o que é uma cultura, vamos estudar alguns de seus componentes.
     Os principais aspectos de uma cultura são: os traços culturais, complexo cultural, área cultural padrão cultural e a subcultura.

Traços culturais

Você já viu alguém dançando frevo? Trata-­se de um gênero musical típico de Pernambuco e do carnaval do Recife e de Olinda. Pois bem, cada passo do frevo é umtraço cultural dessa manifestação de cultura popular que é o car­naval pernambucano (o mesmo se pode dizer do samba no Rio de Janeiro).
Traço cultural é o menor componente repre­sentativo de uma cultura. Ele pode ser um obje­to material - por exemplo, o cocar de penas usado por nossos índios. Neste caso, ele pró­prio é constituído de partes menores - as pe­nas usadas na confecção do cocar, por exem­plo, Entretanto, as penas de pássaro só passam a ser um traço cultural quando reunidas, em nosso exemplo, na forma de cocar.
Um carro, um lápis, uma capa, uma pulsei­ra, um computador são outros exemplos de tra­ços culturais. Os traços culturais são os com­ponentes mais simples da cultura. Eles ,são as unidades de uma cultura.
É necessário ressaltar que os traços cultu­rais só têm significado quando considerados dentro de uma cultura específica. Um colar po­de ser um simples adorno para determinado grupo e para outro ter um significado mágico ou religioso.
Para os fiéis de religiões afro-brasileiras co­mo o candomblé, por exemplo, as cores dos colares usados dependem da divindade cultua­da pela pessoa. De acordo com a crença, eles dão proteção a quem os utiliza. Portanto, só quando consideramos o conjunto da cultura é que podemos entender um determinado traço cultura,l. No exemplo do frevo de Pernambuco, determinado passo só pode ser entendido co­mo traço cultural quando integrado ao todo or­gânico daquela cultura.

Complexo cultural
                                                                     
A combinação dos traços culturais em tor­no de uma atividade básica forma umcomple­xo cultural.
Por exemplo, o carnaval no Brasil é um com­plexo cultural que reúne um grupo de traços culturais relacionados uns com os outros: car­ros alegóricos, música, dança, instrumentos musicais, trios elétricos, desfiles, orquestras de frevo, baterias de escolas de samba, fantasias etc. Da mesma forma, o futebol é um complexo cultural que pode ser desmembrado em vários traços culturais: o campo, a bola, o juiz, os jo­gadores, a torcida, as regras do jogo etc. .

Área cultural

A região em que predominam determinados complexos culturais forma uma área cultural. Esta é, portanto, o espaço geográfico no qual se manifesta certa cultura. Assim, os grupos humanos localizados em determinada área cul­tural apresentam grandes semelhanças quanto aos traços e complexos culturais.
Quando diversas culturas, de diferentes ori­gens, se encontram em uma mesma área cul­tural, e entre elas se desenvolve uma relação de I simbiose e respeito mútuo, temos uma situa­ção multicultural.
No Brasil não temos ainda uma situação multicultural. Existem, sim, miscigenação racial e sincretismo cultural, mas ainda não se pode falar em multiculturalismo, pois convivemos com manifestações de racismo, preconceito e discriminação, como vimos no capítulo 2. Ape­sar disso, é inegável que a miscigenação deu origem no Brasil a uma fusão de culturas .
5- PADRÃO CULTURAL

Padrão cultural é um conjunto de normas que rege o comportamento dos indivíduos de de­terminada cultura ou sociedade. Em outras pa­lavras: quando os membros de uma sociedade agem de uma mesma forma, estão expressando os padrões culturais do grupo. Por exemplo, o casamento monogâmico é um dos padrões culturais da sociedade brasileira.

6- SUBCULTURA

  No interior de uma cultura podem aparecer diferenças significativas, caracterizando a exis­tência de uma subcultura. Assim, por exemplo, há comunidades no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, nas quais certos costumes e va­lores se diferenciam claramente dos praticados em outras regiões do país. Em algumas dessas comunidades, as pessoas se comunicam não só em português, mas também em idiomas eu­ropeus, como o alemão.
Isso acontece devido à presença nessas áreas de imigrantes de origem européia - prin­cipalmente italianos e alemães - que ali se ins­talaram no final do século XIX e que, por seu isolamento, mantiveram traços culturais dos países de origem: hábitos alimentares, festas típicas e, em alguns casos, até o idioma mater­no. Temos, assim, uma subcultura regional no quadro mais amplo da cultura brasileira.
A ocorrência de subculturas não se limita a di­ferenças regionais. Também pode se verificar na relação entre gerações. Às vezes, por exemplo,os jovens criam costumes e modos de vida ra­dicalmente distintos da norma adulta. Por isso, alguns autores falam da existência de uma sub­cultura juvenil.
Exemplo de subcultura juvenil são as cha­madas tribos urbanas: punks, góticos, skinheads etc. Cada membro de uma tribo se identifica pelos símbolos comuns, como o vestuário e o linguajar peculiares que caracterizam o espírito do grupo.

7- O CRESCIMENTO DO PATRIMÔNIO CULTURAL

Cada geração passa por processos de aprendizagem, nos quais assimila a cultura de seu tempo e se torna apta a enriquecer o patri­mônio cultural das gerações futuras. É na ca­pacidade que os grupos têm de perpetuar e  acrescentar novos valores à cultura que reside a possibilidade de progresso.
Em geral, o enriquecimento patrimonial de uma cultura se faz por meio de dois processos: a invenção e a difusão. Depois de estudá-Ios, vamos ver como o desequilíbrio entre os diferentes aspectos da cultura gera o processo conhecido comoretardamento cultural.

Invenção e difusão cultural
Em meados do século XIX, o uso do motor a vapor para mover um veículo correndo sobre trilhos criou um meio de transporte que teria im­portância decisiva no mundo moderno: o trem. Impacto maior ainda foi provocado no fim da­quele século pela invenção do automóvel, que era pouco mais que uma carruagem impulsio­nada por um motor a explosão.
Como veremos no capítulo 10, as invenções são geradas pela combinação entre o patrimô­nio cultural da sociedade e determinadas ne­cessidades sociais. Nenhum inventor parte da estaca zero. Em seu trabalho de criação, ele utiliza o conhecimento acumulado de sua cul­tura, combinando elementos preexistentes para produzir algo novo.
Assim, invenção é a combinação de traços já existentes, dando como resultado um traço cul­tural novo. Muitas vezes, como no caso do trem e do automóvel, as invenções acarretam mu­danças amplas e profundas em toda a cultura.
Alguns traços culturais, como uma nova mo­da ou o uso de um equipamento recentemente inventado, difundem-se não só na sociedade em que tiveram origem, mas também entre cul­turas diferentes, geralmente através dos meios de comunicação (jornais, revistas, televisão, ci­nema, rádio, Internet etc.).
Quando isso ocorre, dizemos que está ha­vendo um processo de difusão cultural.Pode-se afirmar que o enriquecimento cultural se verifica mais freqüentemente por difusão do que por in­venção (voltaremos a tratar das invenções e da difusão cultural no capítulo 10 deste volume).
Geralmente, o patrimônio de uma cultura cresce de geração em geração. Asculturas se desenvolvem incorporando traços culturais em maior número do que aqueles que caem em desuso.
Assim, a cultura é o somatório de todas as realizações das gerações passadas quese su­ cederam no tempo, mais as realizações da gera­ção presente.

8- RETARDAMENTO CULTURAL

As mudanças dos diversos componentes da cultura não acontecem no mesmo ritmo: alguns se transformam mais rapidamente do que ou­tros. As invenções, por exemplo, acarretam mu­danças mais aceleradas na cultura material do que na cultura não-material: os instrumentos, as máquinas e as técnicas mudam mais rapida­mente do que a religião, os padrões familiares e a educação.
Essa diferença de ritmo provoca descom­passos entre os diversos componentes da cul­tura. A introdução da pílula anticoncepcional na década de 1960, por exemplo, encontrou gran­de resistência por parte de setores religiosos, enquanto milhões de mulheres em todo o mun­do já se beneficiavam com a invenção.
     Toda vez que há um desequilíbrio entre os diferentes aspectos da cultura, pode-se falar de retardamento ou demora cultural.

9- ACULTURAÇÃO: CONTATO E MUDANÇA CULTURAL

Durante a colonização do Brasil, houve in­tenso contato entre a cultura do conquistador português e as culturas dos povos indígenas e dos africanos trazidos como escravos.
Em decorrência desse contato, ocorreram modificações tanto na cultura dos europeus re­cém-chegados - que assimilaram muitos tra­ços culturais dos outros povos - quanto na dos indígenas e africanos, que foram dominados e perderam muitas de suas características.
Desse processo de contato e mudança cul­tural - conhecido como aculturação - resultou a cultura brasileira.
Quando seres humanos de grupos diferen­tes entram em contato direto e contínuo, geral­ mente ocorrem mudanças culturais nos gru­pos, pois verifica-se a transmissão de traços culturais de uma sociedade para outra. Alguns traços são rejeitados; outros são aceitos e in­corporados, quase sempre com mudanças sig­nificativas, à cultura resultante.

10- MARGINALIDADE CULTURAL

Na cidade paulista de Tupã - na reserva dos índios Caingangue - vivem, em trezentos alqueires, duzentos indígenas descaracteriza­dos culturalmente. Eles são atendidos por um grupo de funcionários da Funai (Fundação Na­cional do índio); desconhecem totalmente seu passado, não conseguem mais se expressar em sua própria língua, não se lembram mais de seus cantos, de suas danças e de suas antigas prá­ticas de caçadores e pescadores. Também não estão incorporados à cultura da civilização que os cerca. São mansos e tristes.
Quando duas culturas entram em contato, podem ocorrer - além da aculturação - conflitos emocionais nos indivíduos que pertencem a ambas as culturas.
Esses conflitos têm origem na insegurança que as pessoas sentem diante de uma cultura diferente da sua. Aqueles que não conseguem se integrar totalmente a nenhuma das culturas que os rodeia ficam à margem da sociedade. A esse fenômeno dá-se o nome de marginali­dade cultural.

 11- CONTRACULTURA

Nas sociedades contemporâneas encon­tramos pessoas que contestam certos valores culturais vigentes, opondo-se radicalmente a eles, num movimento chamado decontracultura.
Na década de 1950, os Estados Unidos co­nheceram a beat generation (geraçãobeat), que contestava o otimismo consumista do pós-guer­ra norte-americano, a ingenuidade que os filmes de Hollywood apregoavam, o anticomunismo ge­neralizado e a falta de um pensamento crítico.
Inspirados nos existencialistas franceses, os beatniks vestiam-se de preto e recusavam-se a participar do sistema. Seus principais represen­tantes foram o escritor Jack Kerouak e o poeta Allen Ginsberg, entre vários outros artistas e in­telectuais.
Na década de 1960, surgiu o movimento hippie. Como a beat generation, foi um fenôme­no de contracultura, porque se opunha radical­mente aos valores culturais considerados im­portantes na sociedade ocidental: o trabalho, o patriotismo, a acumulação de riquezas e a as­censão social.
Também era contrário à Guerra do Vietnã (1959-1975), à estrutura familiar convencional, à sociedade de consumo e aos hábitos alimen­tares baseados em comida industrializada e fast food (refeição rápida) - traços culturais típi­cos da sociedade norte-americana.
 Muitos jovens dessa época deixaram casa e universidade para viver em comunidades no campo, todos plantavam e produziam a própria comida e educavam seus filhos com base em valores mais humanizados.
A maioria deles era vegetariana e muitos abraçaram religiões orientais, como o zen-bu­dismo e o hinduísmo. Seu principal lema era: "faça amor, não faça guerra".
O movimento hippie, que ultrapassou as fronteiras dos Estados Unidos, foi perdendo o vigor, até desaparecer por completo, às véspe­ras da década de 1980, quando o individualismo e o consumismo voltaram, com toda a força, a ocupar corações e mentes da nova geração.
Leia, na seqüência, como se deu a come­moração dos 25 anos do Festival de Woodstock (1969), um marco da contracultura e do movi­mento hippie nos Estados Unidos.

fonte: http://osnildosociologia.blogspot.com.br/2010_10_01_archive.html dia 23/02/2015 às 16:58